Perceber é algo fácil de ser realizado atualmente? Talvez nos tempos em que nada era regido pelo imediatismo de hoje isso fosse possível, mas viver numa sociedade cercada de facilidades expressas (café expresso, caixa expresso, gráfica expressa, encomenda expressa, trem expresso, etc.), condiciona nosso olhar ao foco de prioridades criadas por nós mesmos. De alguma forma, sempre preenchemos os chamados – ironicamente – horários livres, o que nos deixa num estado de anestesia sensitiva, que atrofia a visão, a audição, o olfato, o tato e o paladar, onde não nos permitimos dar enfoque ao que realmente vale a pena ser sentido, como por exemplo: os pequenos e insubstituíveis instantes vividos.
Mas perceber é algo instintivo, uma ação involuntária que ocorre a todos os momentos e sem premeditações, mesmo que se esteja condicionado à incessante busca do realizar. A percepção torna-se um reflexo do momento, servindo como um referencial para a compreensão pessoal e a relação com o mundo. Nesse aspecto, o filósofo Maurice Merleau-Ponty (1908 – 1961)[1] afirma que “a percepção nunca poderia ser neutra, imparcial ou pura. Ela sofre influências, contágios culturais e sociais”. [2] No caso da fotografia essa questão é reforçada por Boris Kossoy (1941)[3], onde ele afirma que as imagens fotográficas, por sua natureza polissêmica, permitem sempre uma leitura plural dependendo de quem as apreciam, pois muito do que rege o comportamento de cada um diante das imagens está vinculado ao seu repertório cultural particular. [4]
Merleau-Ponty aborda que em toda percepção, tem-se o paradoxo da imanência (o imediatamente dado) e da transcendência (o além do imediatamente dado). Imanência e transcendência são os dois elementos principais, estruturais de qualquer ato perceptivo. Assim, o objeto percebido não é de todo estranho ao sujeito que o percebe (imanência). Por sua vez, toda percepção de alguma coisa significa uma não-percepção de algo que está para além do imediatamente dado (transcendência). Na realidade, de acordo com o autor, os dois elementos não são mutuamente contraditórios, pois toda vez que se tem consciência de alguma coisa, está aberta a possibilidade de não-consciência de aspectos relacionados àquele objeto percebido. [5]
O presente projeto vale-se diretamente desses dois princípios citados por Merleau-Ponty, pois ao ter contato com o objeto, acionar o interruptor e visualizar a imagem é possível que logo se estabeleçam relações com as memórias, num ato involuntário em virtude das imagens exercerem um grande poder na evocação de lembranças. Porém é importante ressaltar que isto não se torna uma regra, já que a fruição é algo extremamente particular é relativo, onde cada espectador pode associar ou não suas próprias conjecturas.
Segundo Henri Bérgson[6], a memória, constantemente inibida pela consciência prática e útil do momento presente, aguarda simplesmente que uma fissura se manifeste entre a impressão atual e o movimento concomitante para fazer passar aí suas imagens, em geral, para remontar o curso de nosso passado e descobrir a imagem-lembrança conhecida, localizada, pessoal, que se relacionaria ao presente. Os movimentos efetuados ou simplesmente nascentes preparam essa seleção, ou pelo menos delimitam o campo das imagens onde iremos colher. Com isso aparecem de fato à nossa consciência, quando deveriam de direito permanecer cobertas pelo estado presente. [7]
A relação proposta pelos dois autores torna-se interessante por analisar o ciclo que se estabelece no processo perceptivo, pois no momento em que tenho um contato – seja com uma imagem, objeto ou palavra -, busco informações relacionadas a ele em minhas lembranças, porém neste exato momento estou criando uma nova experiência que posteriormente se transformará em lembrança e servirá de base para a construção de outros contatos.
Em relação ao olhar, ato pelo qual este trabalho acontece, no livro de Georges Didi-Huberman[8], O que vemos, o que nos olha, o autor reflete sobre o nosso modo de ver e apreciar as imagens. Ele propõe que a imagem tem sua origem em um jogo incessante entre o perto e o distante, uma espécie de ritmo que alternaria o cheio e o vazio, a presença e a perda. Ele trata da questão do ver e do olhar, como duas maneiras de estar no mundo, porque muitas vezes devemos fechar os olhos para “ver” (olhar). Quando o ato de ver nos abre a um vazio, nos remete à perda que em certo sentido nos constitui.
Neste ponto tomo como referência a obra do artista esloveno naturalizado francês Evgen Bavcar, pois não haveria melhor exemplo em olhar de olhos fechados do que analisar a obra de um fotógrafo que é cego. Bavcar pôde enxergar até os 11 anos, quando após dois acidentes perdeu gradativamente a visão, o que segundo ele tratou-se de um “longo adeus à luz, onde teve tempo para dar conta do vôo dos objetos mais preciosos e lhes carregar consigo em uma viagem sem retorno”. [9] A obra do fotógrafo busca as relações possíveis entre a visão, a cegueira e a invisibilidade. Bavcar constrói as imagens fotografadas através de suas lembranças da relação verbal com quem enxerga as fotos, onde, após isso, faz interferências no negativo, arranhando, sobrepondo outras imagens, refazendo e transcendendo suas significações. É através do relato dos outros, que surge para ele um universo ordenado à distância, mas capaz de alcançar uma intensidade espiritual ao resultar na obra de alguém que se apropria de algo que não vê. [10]
[1] Filósofo fenomenologista francês, formado em filosofia (1931) na École Normal Supérieure, de Paris. Em 1945 foi nomeado professor de filosofia da Universidade de Lyon. Publicou um conjunto de ensaios marxistas, Humanisme et terreur (1947). Lecionou cátedra de filosofia, na Sorbonne, em Paris (1949). Colaborou (1945-1952) com Jean-Paul Sartre na célebre revista Les Temps Modernes. Em (1952) assumiu a cadeira de filosofia no Collège de France.
[2] MERLEAU-PONTY. Maurice. Fenomenologia da percepção. Rio de Janeiro: Liv. Freitas Bastos S.A., 1971
[3] Historiador da fotografia, professor, fotógrafo, museólogo, arquiteto.
[4] KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia, SP: Ateliê, 2002. P. 44
[5] MERLEAU-PONTY. Maurice. Fenomenologia da percepção. Rio de Janeiro: Liv. Freitas Bastos S.A., 1971
[6] Filósofo e escritor francês, em 1900 foi nomeado professor no Colégio de França, onde as suas aulas obtêm um êxito sem precedentes. Membro do Instituto de França desde 1901 ingressa na Academia Francesa em 1914. Em 1928 obtém o Prémio Nobel de Literatura. Morre durante a ocupação alemã de França após expressar a sua adesão moral ao catolicismo, apesar da sua origem judia.
[7] BERGSON, Henri. Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 2ª ed – São Paulo: Martins Fontes, 1999. P.107
[8] Filósofo e historiador de arte. Leciona na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Publicou cerca de trinta livros sobre a história e teoria das imagens em um amplo campo de estudo que vão desde a Renascença arte contemporânea, que inclui os problemas da iconografia científica no XIX século, e sua utilização pelas tendências artísticas do século XX.
[9] REVISTA PORTO ARTE. Porto Alegre: Instituto de Artes, v.1, nª 1, 1990. P.80
[10] http://p.php.uol.com.br
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