Desde o momento em que foram definidos os caminhos pelos quais seguiria para a execução do projeto, a intenção de realizar um processo de ordenação das imagens sempre estava latente, porém a forma como isso se concretizaria não estava definida de forma clara. Até que por ocasião da pré-banca, surgiu a idéia de criar um Blog, o que se tornou interessante como forma de superar as fronteiras de acesso ao trabalho, assim como transcender sua temporalidade. A partir de então surgiu o desdobramento virtual do projeto: o Blog www.olhomagico.wordpress.com.
A intenção inicial era de criar um sistema catalográfico mais complexo, partindo de uma descrição técnica, a ser armazenada num banco de dados gravado na memória de um único computador. Porém no decorrer do processo, constatei que a importância da organização das imagens estava em simplesmente disponibiliza-las de forma acessível e auto-instrutiva, sem a necessidade de conhecimento técnico, ou seja, na internet.
A ordenação foi realizada a partir de 20 imagens captadas e selecionadas ao longo do processo, as quais foram numeradas seqüencialmente, de acordo com suas ordens de registro, incluindo as não utilizadas nos objetos plásticos formados pelas sete caixas. O processo de descrição destas imagens foi realizado de forma poética e pessoal, a partir de reflexões e sensações percebidas por mim no momento da tiragem. Por um sistema de busca, é possível realizar uma pesquisa simples, pela numeração da imagem ou a partir de palavras-chave. Além disso, esse banco de imagens possibilita uma troca direta entre artista e público, já que o campo dos comentários é um espaço aberto para discussões, possibilitando conhecer a visão do espectador diante do trabalho com abordagens que até então poderiam não ter sido percebidas.
Como referencial artístico, Rosângela Rennó (1962) trabalha com a questão do arquivamento de imagens, sendo que neste caso a proposta é a de apropriar-se de fotografias já existentes e arquivados, encontráveis em qualquer parte, elaborando uma arqueologia e uma genealogia da fotografia, que desloca essas imagens renovando seus sentidos. Na Instalação da artista denominada Imemorial (fig. 20), por exemplo, é possível estabelecer uma forte relação com esta pesquisa, já que nas duas análises está presente a ambivalência da imagem fotográfica, onde ela oculta o que aparenta exibir e, ao mesmo tempo, traz obliquamente à memória aquilo que não mostra. [1]
Já o trabalho do artista Christian Boltanski (1944), tem como principal tema a sua vida pessoal, a verdadeira ou uma que é reinventada, onde aborda temas como a memória, a identidade, a ausência, a perda ou a morte, utilizando como suporte geralmente a fotografia. [2] O artista trata de questões como a memória individual e coletiva, o anonimato, a reconstituição de histórias através de um inventário de vestígios e sinais e também a possibilidade de reproduzir os dados por forma a torná-los acessíveis ao maior número de pessoas.
Mas por que nomear as imagens como instantes e não de outra forma? Segundo a definição, um instante seria um espaço pequeníssimo, mas determinado de tempo, um momento muito breve[3]. Partindo disso, a escolha por tratar as imagens como instantes, refere-se a um aspecto fortemente presente na proposta: a temporalidade. Merleau-Ponty resume isto quando afirma que “a fotografia mantém abertos os instantes que a arrancada do tempo logo torna a fechar; ela destrói a ultrapassagem, a invasão, a metamorfose do tempo”. [4] Nesse sentido, na descrição das imagens achei interessante colocar o item localização não como uma referência geográfica, mas sim como uma localização de tempo, como se acessasse aquela imagem através do instante vivido, registrado em minha memória.
O processo de transmissão destas imagens consiste em três momentos: registrar um determinado instante, subjetivamente congelado após o ato fotográfico; relançá-lo ao ser revivido pelo objeto plástico, o que é determinado pela regra de acionamento imposta pelo interruptor da caixa e varia de acordo com o tempo de ação realizada pelo agente; e o ato de reacessá-lo no campo virtual da internet através do blog, onde a imagem estará disponível, por tempo indeterminado, superando as fronteiras de contato com o trabalho. Muitas possibilidades de leitura podem ou não ser realizadas, já que não há um caminho definido a ser percorrido para a concretização desse contato. Este trabalho pode ser socializado através de uma via de mão dupla, em que a interação pode existir partindo do objeto plástico para posterior pesquisa no Blog (busca por informações adicionais que complementem a fruição), ou inversamente, partindo da visita ao Blog, realizar a construção de impressões que serão agregadas ao objeto plástico no momento do contato real.
Segundo Henri Bérgson, nossa percepção pura, com efeito, por mais rápida que a suponhamos, ocupa uma certa espessura de duração, de sorte que nossas percepções sucessivas não são jamais momentos reais das coisas, mas momentos de nossa consciência. O papel teórico da consciência na percepção exterior, seria o de ligar entre si, pelo fio contínuo da memória, visões instantâneas do real. Mas, na verdade, não há jamais instantâneo para nós. Naquilo que chamamos por esse nome já existe um trabalho de nossa memória, e conseqüentemente de nossa consciência, que prolonga uns nos outros, de maneira a captá-los numa intuição relativamente simples, momentos tão numerosos quanto os de um tempo indefinidamente indivisível. [5]
Na verdade a questão da temporalidade é mais um dos pontos de subjetividade deste trabalho, já que o tempo á algo extremamente relativo, e neste caso, varia de acordo com as diferentes formas de acesso ao projeto, assim como as diferentes pessoas que podem ter contato com ele. Sob esse paradigma, emergem questões instigantes, já que o presente trabalho contrapõe questões objetivas e subjetivas como: ordenação e percepção, imagem e memória, espaço e tempo.
“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”
Santo Agostinho
[1] ANJOS, Moacir dos. Rosângela Rennó (Catálogo de Exposição). Recife: MAMAM , 2006
[2] http://www.serralves.pt
[3] http://michaelis.uol.com.br
[4] MERLEAU-PONTY. Maurice. O olho e o espírito. Rio de Janeiro: Grifo, 1969. P.98
[5] BERGSON, Henri. Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 2ª ed – São Paulo: Martins Fontes, 1999. P.73
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