Dentre as muitas escolhas processuais deste trabalho, uma delas levanta a questão: Porque apresentar imagens de fragmentos?
É difícil estabelecer onde surgiu esta escolha, mas a intenção em fugir da obviedade despertando a dúvida, sempre direcionou meus caminhos. Durante o percurso acadêmico, principalmente no âmbito fotográfico, por diversas vezes, busquei na imagem fragmentada um maior envolvimento interativo, já que neste caso, para que se estabeleçam relações entre a imagem vista e o objeto fotografado, requer-se maior percepção, o que é o foco principal deste trabalho.
As imagens apresentadas para este projeto são o reflexo dos aspectos sociais vigentes. A visualização dessas fotografias, guardadas no interior das caixas é determinada pelo campo de visão restrito proporcionado pelo olho mágico do dispositivo, através do qual o espectador é condicionado a enxergá-las somente pelo que é abrangido por esse campo, impossibilitando uma apreensão geral da imagem. No livro Espaços do Corpo, Mônica Zielinsky[1] como co-autora, aborda as influências do aspecto social na representação artística: “O jogo é de reflexos, mas é também de reforços. O mundo representado fragmentado reflete (espelha-sinaliza) sociedades fragmentadas. Mas o mundo representado fragmentado reforça igualmente sociedades fragmentadas.” [2]
Um fragmento, segundo a definição é a parte de um todo; pedaço, fração[3]. Por isso, essa pequena evidência, quando focada pode tornar-se um prisma que até então poderia não ter sido percebido ou até mesmo priorizado, dentro de uma enxurrada de informações cotidianas recebidas de forma constante. Geralmente, nos restringimos a viver conforme um fluxo incessante, seguindo uma lista infinita de tarefas diárias, em que otimizamos o tempo da melhor forma possível.
Partindo da escolha em tratar as imagens por meio de fragmentos, encontrei no Retrato a forma de captar sutis particularidades, pois segundo Annateresa Fabris[4], “enquanto história, o retrato supõe a tradução fiel, severa e minuciosa do contorno e do relevo do modelo, mas isso não exclui a possibilidade da idealização, ou seja, a escolha da atitude mais característica do indivíduo e a enfatização dos detalhes mais importantes em detrimento dos aspectos insignificantes”.[5]
Ao realizar o processo fotográfico, minha proposta inicial era que as pessoas posassem para a câmera, porém, logo nas primeiras imagens, constatei que a lente criava nos fotografados uma atitude defensiva, como se um grande olho mágico pudesse espiar e revelar seus segredos, o que tornava freqüente a criação de personagens que os protegessem diante da objetiva. Na defesa da câmara Obscura como técnica, Jochen Dietrich, faz este contraponto destacando as diferenças entre a máquina comum, que bate fotos, que dispara, que parece uma arma, e a atitude suave, inofensiva, passiva da câmara Obscura. [6]
A partir de então, procurei fotografá-los da forma mais imperceptível possível. Inicialmente, sentiam-se constrangidos ao notarem minha presença, sempre com a máquina em punho, como se fosse “disparar” um flash a qualquer instante. Porém, após algum tempo de adaptação, já era possível perceber nas mãos fotografadas gestos genuínos, e no olhar capturado pela lente, rugas provocadas por um sorriso que o emoldurava. Realmente as pessoas estavam ali presentes, com todas suas características, trejeitos, sinais de idade e particularidades.
A obra Per(so)nas da artista Vera Chaves Barcellos (1938), aborda justamente esta questão. O trabalho foi realizado no ano de 1981 a partir de uma série de fotos, cuja proposta é uma leitura por parte do espectador da personalidade das pessoas através de fotos de pernas. Em 1983 a artista imprime um novo caráter a este trabalho ao focar, somente, pernas femininas. Segundo a artista “a idéia surgiu do próprio trabalho, pois as penas de mulheres, pelo menos no mundo ocidental, são mais descobertas e reveladoras de aspectos como idade, status social, gosto no vestir, além de traços psicológicos transmitidos pelas atitudes específicas a cada personalidade”.[7]
Ao ter contato com o trabalho da artista Helena Martins-Costa (1969) fui surpreendida pelas semelhanças entre sua obra e as imagens que formam o presente projeto (fig. 15 e 16). A artista em questão, parte da procura em sebos e feiras de arte, onde vasculha fotografias antigas, retratos em preto-e-branco provenientes de álbuns descartados pelos herdeiros, provavelmente por não ter restado qualquer ligação afetiva entre os homens do presente e aquelas esmaecidas figuras de seus antepassados[8]. Nesse processo de arqueologia fotográfica, ela busca no universo dominado pela inflexibilidade, solenidade, padronização e objetividade imposta pela técnica do Retrato, um detalhe que lhe chama a atenção: as mãos. Segundo ela, este é o único ponto em que certa identidade se manifesta, no qual se percebe uma tensão reprimida. Além disso, sua obra levanta uma questão também presente em minha proposta: Como reagirá o público frente a estas imagens que podem funcionar ou não como espelhos?
É impossível prever esta resposta. Talvez o público se presentifique corporalmente diante destas imagens ou não, o que segundo Helena Martins-Costa gera uma grande responsabilidade ao artista, pois esta imagem, uma vez colocada no mundo, permanece e um dia retorna, estando sempre à disposição para leituras inesperadas. Partindo dessa reflexão torna-se fundamental comentar a respeito do desdobramento realizado para este projeto: o Blog.
[1] Doutorada em Arte e Ciências da Arte pela Universidade de Paris I, em 1998, com tese sobre a crítica de arte contemporânea no Brasil. Coordena a catalogação da obra completa de Iberê Camargo na Fundação Iberê Camargo, onde também integra o Conselho Curador. Coordena também o Centro de Documentação e Pesquisa em Arte contemporânea do Rio Grande do Sul, no Instituto de Artes da UFRGS, onde também leciona a disciplina de História Teoria e Crítica.
[2] KERN, Maria Lucia Bastos. Espaços do corpo: aspectos das artes visuais no Rio Grande do Sul (1977-1985). Porto Alegre: Ed.da UFRGS, 1995. 207 p.
[3] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. RJ – Ed. Nova Fronteira – 2ª Ed., P.807.
[4] Historiadora e crítica de arte. Professora do programa de pós-graduação em Artes da Universidade de São Paulo. Pesquisadora do CNPq. Recebeu o Prêmio Jabuti de Ciências Humanas pelo livro O futurismo paulista, e o Prêmio Sérgio Milliet da Associação Brasileira de Críticos de Arte pelo livro Cândido Portinari. É autora de vários livros dedicados à arte moderna, ao ecletismo e à fotografia.
[5] FABRIS, Annateresa. Identidades Virtuais: uma leitura do Retrato Fotográfico. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. P.21
[6] REVISTA PORTO ARTE. Porto Alegre: Instituto de Artes, v.1, nª 1, 1990. P.65
[7] VIGIANO, Cris. Vera Chaves Barcellos. Porto Alegre: Edição do Arquivo Espaço NO, 1986. P. 24
[8] OLIVA, Fernando. Helena Martins-Costa: Questões para o presente da fotografia. In: Paço das Artes: Temporada de Projetos 2003-2004.
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